Angola, Alto Catumbela
Lá onde o rio, a estrada e o comboio se cruzam...
Regresso ao Alto Catumbela - O ÚLTIMO Retornado - um livro de Julio Borges Pereira  2012
A Fábrica
Em 1961, a CCUP iniciou a produção de pasta e papel no Alto Catumbela, junto ao rio e à linha de caminho de ferro, de desenho sinuoso. A meio caminho entre Benguela e o Huambo. A principal matéria prima era o eucalipto, misturado com pequenas quantidades de fibra de sisal. Em 1965 a Companhia tinha 9.000 ha de plantações de Eucalyptus salignae em quatro centros. Electricidade, cloro, caulino, madeira e Land Rovers, agitaram o planalto. A fábrica produzia pasta em bruto e branqueada, papel kraft, papel de escrita e sacos. A produção diária era de 70-75 toneladas de pasta e 15 toneladas de papel. Estava projectada a sua ampliação para 800 toneladas por dia.


Os eucaliptos
De 9000 ha em 1965, no fim das campanhas florestais de 1969/70 as áreas plantadas atingiram os 17.370 ha. Em 1970/71, 24.000 ha. Em 1972/73, 48.000 ha e, em 1973/74, 58.000, porque a terrível seca comprometeu a campanha.
Com a ampliação da Fábrica, estava prevista a florestação de 100.000 ha de terreno. Mas vicissitudes várias do processo de independência de Angola, impediram a concretização do projecto.


O Comboio
O Caminho de Ferro de Benguela chegou ao Alto Catumbela em 1909. Meio século depois, a Estação do Alto era uma tabuleta, uma casa térrea e um poste com uma lâmpada cercada de insectos, primeira imagem da "cidade", para milhares de moradores.
Depois, destruídos pela guerra, os comboios deixaram de rasgar o horizonte e ficaram confinados aos 34 km entre o Lobito e Benguela.

O dia 28 de Novembro de 2001 marcou uma nova etapa. Terminaram os 99 anos da concessão de exploração e reverteram a favor do Estado angolano todos os meios fixos e circulantes da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela SARL. Foi então anunciada a ligação do Lobito ao Cubal pela variante, 153 quilómetros sem passar por Benguela, para o primeiro trimestre de 2002 ... mas a ponte da variante do Cubal estava pior do que o previsto e havia três pontes metálicas que não tinham sido consideradas... Falou-se depois em Agosto mas, em Novembro de 2002, a chegada ao Cubal foi adiada para Dezembro. Em Março foi anunciado novo adiamento, com as obras limitadas à colocação de brita e pedra, por falta de travessas, e só em Maio de 2003 engenheiros portugueses e técnicos angolanos começaram as obras de recuperação da ponte sobre o Rio Cubal, que ficaram concluídas sete meses depois, no dia 6 de Fevereiro de 2004. O tabuleiro, em betão pré-esforçado, possui seis tramos de 25 m. Um deles foi totalmente demolido e reconstruído, assim como um dos pilares de apoio. Finalmente, no dia 18 de Dezembro de 2004, foi reinaugurada a variante Lobito-Cubal que só arrancou definitivamente em Julho de 2005 devido a obras na ponte sobre o rio Halu.

Em Novembro de 2005 o director do CFB anunciou ser intenção do governo fazer chegar o comboio ao município do Luau, a 1.301 km da cidade do Lobito, no prazo de três anos, com recurso a uma linha de crédito da República da China. Esse crédito veio acelerar a reabilitação total, com desminagem, reposição de linhas, construção de pontes e estações, e reparação de locomotivas. A empreiteira chinesa China Railway 20 Bureau Group Corporation (CR-20) deverá terminar em Maio de 2010 a reposição de carris e está previsto para 2011 o comboio inaugural de passageiros do Lobito ao Luau.

O Governo angolano investiu até à data 1.800.000.000 de dólares na recuperação do Caminho de Ferro de Benguela.


O Bairro 1, o Bairro 2 e o Bairro 3
Os arquitectos portugueses Bartolomeu Costa Cabral, A. Freitas Leal e Nuno Teotónio Pereira, foram os autores da "minicidade industrial" da Companhia de Celulose (Alto Catumbela, 1958-59).
Três bairros habitacionais, um Clube com uma sala de cinema de 210 lugares, campo polivalente, piscina, o melhor campo de golfe do sudoeste aficano, tudo isto, completamente gratuito para os sócios do Clube. Mesmo o consumo de água e electricidade, nas casas da CCUP, era suportado pela Companhia.


O Colégio, a Escola e o Campo de Ténis
O ano de 1961, marca a evolução política e social, com o início da luta armada. No sector da Educação, intensificam-se esforços para criar bases culturais bem alicerçadas. Os governantes portugueses pretendem deste modo consolidar o domínio político, entravando a formação da consciência nacional angolana e aspirações de emancipação. No dia 8 de Fevereiro de 1961 foi extinto o posto e criada a Escola Primária nº 168, no Alto Catumbela. ( Martins dos Santos - Cultura, educação e ensino em Angola )

9 anos depois, passou a ser possível fazer o exame do 5º ano na Ganda. Um despacho de 4 de Agosto de 1970, criava a secção da Ganda do Liceu de Benguela.



Em baixo, duas imagens separadas por quase 40 anos...o que resta do Colégio...onde as aulas continuam...



O Rio Catumbela
O rio Catumbela, à escala angolana, é um rio pequeno, com pouco mais de 250km. Nasce a Sul do Cusse, no Planalto Central, província da Huíla e desce apressado quase 2000m, entre terra vermelha e rochas graníticas. Por vezes, descansa numa curva e alarga.
De Caluquembe até perto do Alto Catumbela, corre para Norte. Aí, encontra o caminho para o mar e vira a poente.
Chega à Catumbela, perto do Lobito, já cansado, depois de ter alimentado as barragens do Lomaum e do Biópio.

A Escola Primária ficava no Bairro 3 e quem morava no bairro 1 ou 2 atravessava a velha ponte de madeira, que parecia ceder todos os anos, quando o rio transbordava, furioso e vermelho. Hoje, três décadas passadas, o mato cresceu e é difícil descobrir onde ficava a velha ponte.




A Piscina
As piscinas... que, na verdade, eram duas, porque havia uma outra, no Bairro 2, nas terras do Tchimbira, perto do rio. Demasiado perto do rio, porque ficava cheia de lama durante as cheias e até lá ficou preso um jacaré.



O Cinema e o Café
O Clube, com a "biblioteca" e os campeonatos de Xadrez. Os bilhetes que não era preciso pagar e os mesmos filmes, vistos 3 vezes por semana, em 2 ou 3 sessões diárias. O Bar da Ultracel, com uma queimada pintada por Hilário da Eira Rebelo, e a esplanada virada para o Bairro.



A Barbearia do Candimba
E, já agora, o freguês que se segue! em duas fotos enviadas pelo próprio Fernando Coelho.
José Romeiro é o cliente que está a ser submetido ao sacrificio, e os sentados em lista de espera são o Ernesto Simões e Pedro Tirado.





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Actualizado no dia 3 de Dezembro de 2012