Carlos Pires
Politica mente incorrecto - porque a vida é bela.
 | Carlos Pires  | Fernando Vieira Pires |  | Raquel Pinhão Fidalgo  | Renato Pinhão |

A nossa loja ficava na "Rua Direita" de Alpiarça, Rua José Relvas 85, junto à antiga bomba de gasolina e ao cruzamento com a "Estrada do Campo".

Tinha representação da Grundig, da AEG-Telefunken e dos frigoríficos King, e também vendia lâmpadas Osram para casa e para carros, pilhas Hellesens, candeeiros, lanternas e ferramentas Bosch. Depois, começou a distribuir botijas de gás da Gazcidla. Nas traseiras era a oficina, onde o meu pai rebobinava motores e reparava rádios. Com a minha mãe ao balcão e a fazer a contabilidade, foi dando para pagar casa, carro e dois filhos no colégio. E para dar emprego a filhos de amigos presos pela PIDE. Mas a situação foi piorando e em 1967 fomos para Angola, onde o meu pai começou a ir para o trabalho de bicicleta e a não haver dinheiro para nada. Mas nós sabíamos porquê.






 



Seminário Livre de História das Ideias (SLHI) - Publicidade paga pelas lojas de Alpiarça na Revista Seara Nova que dedicou, em março de 1962, um artigo a Alpiarça e ao Museu José Relvas.





Foi no tempo da DITA DURA e era tudo tão bom que até havia eleições.

As eleições legislativas de 1961 foram realizadas no dia 12 de Novembro e a União Nacional do ditador Salazar elegeu os 130 deputados da Assembleia Nacional.

A totalidade dos votos, um milhão e trezentos mil, foram a favor do ditador, entre votos a favor e abstenções. Porque quem cala consente e as abstenções contavam a favor da "situação".

Um mês antes das eleições, o meu pai foi preso "por suspeitas de atividades contra a segurança do estado, tendo recolhido na mesma data à cadeia do Aljube". Dois meses depois "foi transferido para o Depósito de Presos de Caxias". Foi preso e torturado porque fazia parte de uma comissão de apoio à Oposição Democrática, que acabou por retirar a candidatura a 8 de novembro, por não existirem condições para ir até às urnas.




Mais tarde, em 1964, voltou a ser suspeito de atividades contra a segurança do estado por pertencer à organização do funeral de uma jovem de 23 anos que conhecia, trabalhadora agrícola muito querida em Alpiarça, que morreu com uma infeção pós-parto, porque o Hospital de Santa Maria lhe recusou os cuidados devidos.

Era este o Estado Novo e era este o meu pai.




   


Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Foram cadastrados 26.375 cidadãos, homens e mulheres, detidos e torturados sem acusação formada, que ficavam depois sujeitos a "medidas de segurança".




Em baixo, foto publicada na Voz de Alpiarça em 2022. Cortesia de Ricardo Hipólito.



Alpiagra - Setembro de 1992 - Pavilhão da ANAA - Associação de Naturais e Amigos de Aliraça. Da esquerda para a direita: Artur Carvalho, Fernando Vieira Pires (de costas), Carlos Pinhão Correia, Maria Luísa Feliciano Correia, Maria Alice Favas e Raquel Pinhão Fidalgo. Alpiagra 1992.


Actualizado no dia 18 de abril de 2024